Biblioterapia. Por que ainda não desisti dessa história

Erica Oliveira

Fazia tempo que eu estava interessada no curso de biblioterapia da Cristiana Seixas. Eu achava um barato a ideia de estudar o potencial terapêutico da literatura e ainda entender como alguém tinha construído em cima disso um ofício. Depois de um fim de semana de aulas em Niterói, voltei para o Rio trazendo comigo os fundamentos e o desejo de tocar um projeto de leituras terapêuticas com refugiados.

Minha ideia era que, por meio de cartas (a escrita é uma baita ferramenta de cura), os refugiados me relatassem suas dores e conflitos. A partir daí, eu indicaria um livro, capaz de transformar ou aliviar, em alguma medida, aquela aflição. A troca de cartas continuaria depois, de forma que houvesse um acompanhamento, ainda que breve, dos desdobramentos. As vantagens? Algumas. Além de aprimorar o português, o que seria ótimo para uma possível inserção em nosso mercado de trabalho, eles ainda teriam a oportunidade de mergulhar em nossa cultura e conhecer um pouco da literatura brasileira. Parece redondinho, né? Mas a história não foi pra frente.

Comecei buscando instituições que acolhessem refugiados aqui no Rio. Fui pessoalmente até o escritório da organização “Abraço Cultural”, na Tijuca, para explicar o projeto e minhas intenções. A pessoa que me ouviu recebeu muito bem a proposta e disse que talvez houvesse três ou quatro refugiados interessados em participar. Eu sabia que a questão cultural seria um desafio, mas insisti. No fim das contas, apenas um homem se comprometeu a seguir comigo nessa doce terapia. Passei pra ele algumas poucas orientações. Eu espero até hoje pela sua primeira carta.

BUSCANDO UM PLANO B

Então, eu tinha toda a teoria e um belo projeto. Ou seja, conceitos e ideias, que eu tentava de todo jeito tirar do papel, mas que teimosas, elas insistiam em lá ficar. Eu precisava desapegar. Precisava reformular meu plano original e pensar um novo projeto de leitura terapêutica pra chamar de meu.

No começo de 2019, participei de um encontro facilitado por uma colega, a Claudia Antonio, também ex-aluna da Cristiana Seixas. O trabalho da Claudia é interessante, todo focado em literatura infantojuvenil. E ali eu tive um estalo: que tal se eu também fizesse algum recorte, afunilasse a ampla gama de leituras possíveis? A ideia parecia boa, mas eu precisava entender melhor que recorte seria esse. Vasculhei interesses e lembranças e acabei chegando no mar. Esse seria o meu eixo e decidi que todos os livros trabalhados nos meus encontros, de alguma forma, teriam relação com o mar.

Com isso em mente, catei na estante 100 Dias Entre Céu e Mar, de Amyr Klink, e a versão que eu tinha de Moby Dick, de Herman Melville. Aos poucos, fui lembrando outras preciosidades que eu poderia trazer para minhas rodas. Assim, “O Velho e o Mar”, de Hemingway, e os poemas da portuguesa Sophia de Melo Breyner entraram na minha listinha de leituras obrigatórias (e urgentes).

Mas eu ainda precisava elaborar outros detalhes práticos e mundanos, como o valor cobrado pela participação e a decoração do encontro. Sobre este ponto, eu via em fotos que as colegas sempre enfeitavam o ambiente com toalhas coloridas, velas e outros adornos. Um barquinho de papel flutuando ao centro me parecia pertinente, simpático e instigante.  

Eu tinha algumas dúvidas: quanto tempo seria razoável para as leituras? E para as trocas, discussões? Depois das conversas, valeria ainda algum outro tipo de interação, uma dinâmica, por exemplo?

Entendi que essas respostas me chegariam com o tempo e com a prática e fiz, então, o convite do meu primeiro círculo de leituras. Aos poucos, os (poucos) interessados foram se inscrevendo e me fazendo vibrar a cada reserva. Mas à medida que a data do encontro ia se aproximando, eu comecei a receber mensagens com justificativas mil para as desistências. Não me restava outra saída a não ser liberar o espaço que eu tinha agendado para o evento.

“O mar, há quem diga, não passa de uma biblioteca de todas as lágrimas da história.” (O Fim – Desventuras em Série)

Agora, então, eu tinha a teoria, um projeto com refugiados, que não tinha avançado, e um círculo de leituras sobre o mar cancelado por falta de quórum. Bateu desânimo, claro. E além do desânimo, bateu dúvida. Será que era só agendar uma nova data? E se todo mundo desmarcasse de novo? Será que eu queria me sentir assim tão vulnerável, dependendo do outro, mais uma vez, para botar no mundo aquilo que eu queria ver nascer?

BUSCANDO UM PLANO C

Nesse momento, eu estava com um bebê de alguns meses e pouco disposta (quase nada) a assumir mais tarefas. Resolvi deixar a ideia dos círculos de leitura um pouco de lado e foi nessa hora, então, que surgiu uma outra ideia: em vez de promover meus círculos, eu poderia escrever sobre eles, relatando as minhas experiências (ou a falta delas). Saber que o processo dependia mais de mim que do outro me trouxe alguma tranquilidade e o estímulo que eu precisava para continuar.

Daí, entre um chorinho e outro, eu me pegava estruturando esse texto, resgatando algumas palavras da Cris e refletindo um pouco sobre vulnerabilidade, rede e interdependência. Sim, meu bebê me ensina um bocado sobre tudo isso. Mas e o que dizer das minhas tentativas – frustradas – de emplacar algo legal na área de biblioterapia? Taí uma aula imperdível.

Acho que já, já, vai bater a vontade de reorganizar meus círculos de leitura sobre o mar. E se de novo não tiver quórum, aí eu busco o plano D e sigo em frente. À deriva é que eu não posso ficar.

Erica Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, em 1982. Formada em Comunicação Social (UFF) e pós-graduada em Marketing (Ibmec), é autora do livro infantil “Betina, a colecionadora” (ed. Franco), além de participar da coletânea “Novas Contistas da Literatura Brasileira”, organizada pela editora Zouk, em parceria com o coletivo Casa da Mãe Joana.
Conheça mais sobre seu trabalho em @colaeverso


Para saber mais sobre Biblioterapia

LINKS:

CURSO DE BIBLIOTERAPIA DA CRIS SEIXAS

“Biblioterapia – bases conceituais, práticas e acervo”.

http://www.cristianaseixas.com

CÍRCULO COM CLAUDIA ANTONIO

https://pt-br.facebook.com/pequenalegria/

Crédito Imagem Barco: by Whalhere



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